Apesar do primeiro corte em dois anos, a Selic ainda permanece em um patamar elevado, de dois dígitos, e deve terminar o ano assim. Juros mais altos reduzem a capacidade de compra das famílias e impactam a demanda por financiamentos, o que tende a esfriar o mercado imobiliário.
Além disso, uma taxa básica mais alta torna os investimentos em renda fixa mais atrativos. Parte dos investidores migra recursos que antes iriam para a poupança ou o setor imobiliário, reduzindo a base de captação dos bancos e pressionando a oferta de crédito.
“Como os financiamentos habitacionais no Brasil, especialmente os do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos), são sustentados majoritariamente por recursos da caderneta de poupança, essa migração para ativos mais rentáveis reduz a base de captação dos bancos”, explica Peixoto Accyoli, CEO da Re/Max. “Isso limita a oferta de crédito e pode pressionar as taxas para cima, mesmo com a demanda contida".
O impacto atinge também quem já tem um financiamento. Embora a maioria dos contratos esteja atrelada a taxas fixas, o ambiente de juro elevado pesa no orçamento das famílias, por meio da alta no custo geral do crédito. “Nesses casos, vale a pena acompanhar o mercado e avaliar, se for possível, a portabilidade do financiamento para uma instituição com melhores condições”, aconselha o executivo.
O financiamento ainda é uma opção viável?
Depende do horizonte — e do orçamento. O primeiro corte da Selic em dois anos inaugura uma mudança de direção, mas ainda não altera de forma relevante o custo do crédito imobiliário no curto prazo.
Para quem acompanha ciclos, o momento pode marcar uma janela de entrada — desde que a trajetória de queda dos juros se sustente. É o que aponta Fabrício Schveitzer, conselheiro de estratégia do ecossistema Sienge. Segundo ele, há uma lógica semelhante à do mercado de ações: buscar assimetrias antes do movimento mais amplo de recuperação.
“Caso isso caiba no seu orçamento, sim, pode ser um bom momento de entrada”, afirma. O contraponto é imediato: renda pressionada por inflação, endividamento e custo do aluguel ainda limita a capacidade de compra de grande parte das famílias.
No curto prazo, porém, o impacto tende a ser mais simbólico do que prático. Uma queda de 0,25 ponto percentual não deve se traduzir em alívio imediato nas taxas ao consumidor final. “Uma mudança maior pode acontecer depois de dois ou três cortes, quando se indicar uma tendência consistente”, diz Schveitzer.
Onde já pode haver algum efeito é na oferta. A régua de crédito — ou seja, as condições para aprovação — pode começar a afrouxar antes mesmo de uma queda relevante nos juros finais.
Do lado das incorporadoras, o início do ciclo de distensão já muda o humor. Claudio Carvalho, CEO da AW Realty, afirma que o movimento tende a destravar tanto a produção quanto a demanda. Na prática, isso ocorre porque bancos passam a enxergar menor risco no financiamento, reduzindo gradualmente o custo de capital.
Esse efeito, no entanto, não é homogêneo. A classe média, mais dependente de crédito, é a que mais sente tanto a alta quanto a queda dos juros. Já segmentos de alta renda seguem menos sensíveis ao financiamento e mais guiados por estratégia patrimonial.
Há ainda uma camada estrutural: o funding. No caso do Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, o impacto da Selic é indireto. O programa depende do FGTS e de subsídios públicos. Nesse modelo, o risco não está no custo do dinheiro, mas na capacidade do governo de sustentar os incentivos.